20 outubro 2017

Susana Sofia Miranda Santos – escritiva 22

Esta manhã, quando temperava o hambúrguer que confeccionaria  ao almoço, o telefone tocou. Dirigi-me à sala para atender a chamada.
Quando regressei à cozinha para retomar o trabalho culinário, já não encontrei o hambúrguer, mas somente um prato vazio em cima da banca, bem como vestígios de carne picada no focinho da minha cadela.
Não fiquei zangada... até achei piada!
O drama é que este episódio provocou-lhe gastrite, carecendo de tratamento veterinário.
Felizmente, já se encontra saudável.
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto
Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante


Isabel Lopo – desafio 120

Encarcerada neste pequeno mundo onde tudo era rotina, já nada era emoção, nem mesmo tu, parti… Percorri estradas, desertos onde o som era silêncio, respirei o cheiro do capim, perdi-me por entre as cores exóticas de terras longínquas....
Um dia acordei com o coração dorido. Bastou o sábio curandeiro olhar-me nos olhos para descobrir que o meu mal eram saudades...
Chegada a hora do regresso, caminhei entre o deslumbre de um reencontro e o medo do abandono!
Isabel Lopo, 71 anos, Lisboa
Desafio nº 120 ― reencontrar o caminho sem V nem F


Susana Sofia Miranda Santos – escritiva 4

Queridas amigas, não possuo um porte atlético impressionante nem cultivo práticas desportivas louváveis, mas a vaidade nunca me fez viver obcecada por saltos altos.
Sempre foi prazeroso o momento do encontro entre todas as amigas.
Vocês acompanhavam-me nos pés, diariamente, oferecendo-me o conforto necessário para passear pela trela a minha melhor amiga.
A nossa vida em conjunto, apenas terminou quando a vossa ficou destruída, após tantas horas nos meus pés. Obrigada pelos passos seguros, nunca vos esquecerei!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio Escritiva nº 4 – homenagem às sapatilhas

Fernando Morgado – desafio 127

Era noite. Já os pássaros se ocultavam no castrejo da vila quando o lustre caiu com grande estrondo.
A sinistra ocorrência fez estrebuchar a mestrona da astrologia; deixou-a em profundo stress, a ver as estrelas.
A biltre personagem, pouco segura no estribo das suas certezas, não destrinçou astrágalo de joanete, bistrô de casa de reza, fontanário de campanário, e ficou prostrada a olhar para o lampadário caído sobre ela.
Aí, a monstrinha gritou: socorro, salvem-me desta visão!
Fernando Morgado, 63 anos, Porto
Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3


Susana Sofia Miranda Santos – escritiva 3

Nesta manhã invernal, o sol brilha num céu azul.
Visto o fato de treino, calço as sapatilhas, correndo imediatamente para a rua.
Vou aproveitar as tréguas climáticas para fazer ginástica.
Contudo, quando já estava longe, surgiram rajadas de vento poderosas, a chuva começou a cair como um dilúvio catalítico.
De repente, avisto o carro vermelho do meu namorado que veio buscar-me.
Obrigado, amor, sem ti não sobreviveria! Como abrigo, és mais eficiente que a Arca de Noé!
Susana Sofia Miranda Santos, 38 anos, Porto

Desafio Escritiva nº 3 – texto com: chuva, vento, amor, azul, vermelho e rua

Concha Cassiano Neves – desafio 52

Gosto dos domingos na casa velha.
Quando todos saem, sorrio por antecipação.
Tudo é silêncio, depois começam os ruídos: madeira a estalar, vento nas frestas…
Passeio devagar pelas salas e corredores.
Instalo-me voluptuosamente no cadeirão da avó.
Suspiro e fico à espera.
Lá está aquele leve raspar de unhas e o passinho rápido no sobrado.
Sacudo o pelo e aliso os bigodes, aquilo é música para os meus ouvidos.
Subo a escada num salto.
O almoço chegou…
Concha Cassiano Neves, 70 anos, Lisboa

Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio

Escritiva nº 25

Estava eu muito entretida a corrigir uns vídeos que os alunos tinham feito, quando percebi que um deles se tinha enganado ao dizer “amar-te” em vez de “a morte”. No contexto, provocava bastante confusão porque enganou-se o tempo todo, mas pensando bem, de um ponto de vista poético, ele criou algo muito bonito.

Ora eu não sei vocês, mas eu dedico-me muitas vezes a mudar as letras de sítio, a acrescentar 1 letra à palavra ou retirar, e a ver o que acontece.
Por exemplo: AMOR, ATOR, TORA, TROA, TROPA, TOPA, TIPA, TRIPA e posso estar assim até não encontrar mais:
RISO, PISO, PESO, PRESO, PRETO, PRATO, PATO, PITO, APITO ou 
RITA, FITA, FRITA, GRITA, GRUTA, GRUA, RUA, TUA, TUNA

O que é que eu vos peço? Peguem num destes exemplos que eu vos dou, ou criem um vosso, e usem as palavras no vosso texto de 77 palavras. Não se esqueçam de indicar a negrito as palavras que escolheram.
Ah, e usem-nas na mesma ordem pela qual as escreveram (do princípio para o final) ou no sentido inverso (do final para o princípio).

Eu usei aquela última sequência, ficou assim:
Rita, como é que perdeste a fita?
 Ai a fita! Se ela descobre estou frita!
 Credo, não exageres, ela grita, é só isso que ela sabe fazer: gritar para toda a gente ouvir.
 Maldita a hora em que entrei naquela gruta...
 Gruta, que gruta? Tu disseste que estavas bloqueada porque havia uma grua que não deixava ninguém atravessar a rua.
 Que ideia a tua! Eu estava era com a tuna a ensaiar a serenata para a Renata!
Paula Cristina Pessanha Isidoro, 36 anos, Salamanca
Escritiva nº 25 - palavras em sequência de mudança


18 outubro 2017

Domingos Correia ― desafio 127

Arminda Silvestre e Castro
Arminda Silvestre e Castro tinha noventa anos. Cheiinha de estrias, estragos do tempo, mas no olhar, duas estrelas, quais astros de céu noturno! 
Já vivera no estrangeiro, palmilhara já muita estrada, enfrentara muitos monstros e, no entanto, continuava ali.
Segredos? Comia, vivia, falava o estritamente necessário. Era mestre do viver. Agora restringia-se à sua casinha… pouco saía.
Tão sábia aquela sua frase que dizia tantas vezes!
― Esta vida é tão curta, mas com uma história tão comprida!...
Domingos Correia, 59 anos, Amarante

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

Amélia Meireles ― desafio 122

Todos os dias, sem que a velha Genoveva desse conta, banhava-se no seu leite morno. Não era uma mosquita qualquer. Vaidosa, gostava de preservar a pele sedosa. Enquanto se banhava, bebia um pouco de leite e, no dia seguinte, entre uma colherada e outra, voltava ao mesmo. Naquele dia notou algo diferente. A pele desfez-se. Genoveva misturara água fervente ao leite condensado. Sentia-se desfalecer. Genoveva barafustou. Sentiu-se atirada para o ralo. Era apenas uma mosquita no leite…
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Desafio nº 122 ― um mosquito no leite

Matilde Faria ― desafio 126

Estava no meio da ponte, e o nevoeiro intensificava! Cada vez mais denso, impedia-a de observar o voo da ave branca. Aparecia, logo desaparecia, sentia-a intermitente! Trazia a mensagem da data do regresso de seu pai. Ao aperceber-se do seu desaparecimento, o medo aumentava. Conseguiria a ave transpor o nevoeiro e encontrá-la?
Até que a bruma deixou de cobrir a ponte, desvanecendo, e o recado foi surpreendentemente entregue pelo seu pai. A guerra terminara, a paz dominara!
Matilde Faria, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente


Amélia Meireles ― desafio 123

Nunca mais fora o mesmo, depois de ter estado entre a vida e a morte quando teve tifo. Nada fazia jus à sua capacidade de entrega, nem mesmo quem já merecera a sua total doação. Juca gostava de passear à beira rio e, por longas horas, afastar-se das gentes que o rodeavam. O rio Sado parecia entender toda a sua desilusão. Nele deixava ir toda a sua mágoa. Depois, no seu jardim, debaixo da velha sica, adormecia.
Amelia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada
Desafio nº 123 – palavras com letras de justificado


Eurídice Rocha ― sem desafio

vergonha
uma solidão desgarradora
uma fragilidade intrínseca
que tinha diante dos olhos
vagamundos
buscou forças aonde já as não havia
levantem-se que já é hora
nem ele nos entende a nós
expresse o meu pensamento
nem nós o entendemos a ele
caiu ali um meteorito
filhos, sem saber porquê nem para quê
sem consciência
sem responsabilidade
sem culpa

culpa
desgarradora fragilidade
vagamundos dos olhos
meteorito sem responsabilidade
pensamento sem saber hora
levantem-se vergonha
intrínseca consciência
solidão ali

Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

Amélia Meireles – escritiva 22

Conseguira! Apressadamente escondeu a foto do seu amigo colorido. Por pouco não fora apanhada pelo namorado. Gostava mesmo da dedicatória: “Sou o teu amor para a vida”. Agora só desejava chegar a casa sem que Hugo descobrisse. Apressou-se a sair da biblioteca mas, sem dar conta, pegara no livro de matemática do namorado. Ao devolvê-lo, percebeu que fora ali que escondera a foto da sua nova paixão. Apanhada! Como explicar o inexplicável? Uma história que acabou mal...
Amélia Meireles, 64 anos, Ponta Delgada

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

Luís Capela – sem desafio

Vida
Minha mãe está longe. Estou longe da minha casa... vivo no lar. Minha mãe já não consegue apoiar-me. Sinto saudades do meu pai. Quero morrer.
No lar ninguém tem tempo para estar. Sinto-me só. Não gosto. Penso muito na morte, nesta vontade... morrer!
No dia seguinte acordo, venho para a quinta e cá gosto de trabalhar, gosto de jogar boccia, gosto de tocar nos "Ligados às Máquinas".
e pudesse escrevia à minha mãe "gosto muito de ti".

Luís Capela, 33 anos, Mealhada

Eurídice Rocha – sem desafio

Meu amor
Entre a miséria exaltam-se tesouros que aliviam os dias e os tornam prováveis. Mil cores de mil tecidos ágeis balanceiam-se nos corpos torneados das gentes dóceis, onde guerra não se espelhou.
Sorrisos resplandecentes esculpidos na dor de um povo feito de almas suaves – sentenças correm no desenrodilhar do tempo amamentando elos. Povo dócil esculpido na dor!
Terra pó assalta-nos corpo, talha-nos esculturas da leveza branda do ser.
Odores distintos enlaçam-nos paisagem inebriante.
Quero-me tu, só tu, Angola! 

Eurídice Rocha, 51 anos, Coimbra

17 outubro 2017

Joana Silva ― desafio 126

Olhas-te ao espelho e já não és o mesmo. Vês o teu mundo a desmoronar diante dos teus olhos. Tu mudaste, eles mudaram, tudo mudou. Sentes-te intermitente. Ora vives, ora sobrevives. De um momento para o outro, escorregas em memórias e em possíveis cenários de tragédias psicológicas. Choras, tremes, passas as mãos pelo cabelo vezes e vezes sem conta. Limpas as lágrimas e um sorriso aparece no teu rosto. Ninguém precisa de saber como realmente te sentes.
Joana Silva, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

Isabel Sousa – desafio 115

Os homens são rios iludidos
Na contínua rotação das noites, os homens esperam futuros por acontecer. Nessa espera, são rios iludidos que querem ser lagos. Ávidos, retêm as águas nas pedras e constroem barragens, esquecendo a sua verdadeira natureza que é serem rios e passarem. Difícil convencê-los a soltarem-se, perderem o medo e cavalgarem os leitos de mil escombros, como cascatas caindo em plena liberdade. Nesta retida condição, muitas vezes, acordam quando finalmente atingem o mar e se dissolvem nas salgadas águas.
Isabel Sousa, 65 anos, Lisboa
Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

Gonçalo Gonçalves ― desafio 126

Desde a festa do João que me sinto intermitente. Já não é só a cabeça que se afasta. Agora é a minha alma, o meu ser. Eu sabia que não devia ter experienciado… De tantos avisos que me deram e que sempre achei sem importância, fui, mesmo assim, experimentar. Porque é que lhes dei ouvidos? Devia ter ficado em casa naquele dia. Imagino a mácula que será quando falar com os meus pais. Acho que vou desligar…
Gonçalo Gonçalves, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

Zelinda Baião – desafio 127

O lugar era estranho. A estrada, fio de nastro a serpentear por entre colinas, conduziu-a a nenhures. Apenas um céu, imenso, estrelado, esperava por ela. Que importava? Sempre vivera sem qualquer restrição, com o estritamente necessário. Era livre!
Aspirou o ar e estremeceu. Um som, cavernoso, estridente, qual monstro saído das entranhas agrestes, ecoou. Uma orquestra? Ali? Inusitado. Ou não. Desafinava. Não havia maestro. Apenas homens e mulheres que rodopiavam, loucos.
Estremunhada, abriu os olhos. Que sonho!
Zelinda Baião, 55 anos, Linda-a-Velha
Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

António Vaz ― desafio 126

Estava um dia soalheiro e quente. Toda a gente tinha um enorme sorriso no rosto. O ambiente era alegre e divertido! Só eu estava triste, embora não soubesse porquê.
Ora me sentia pesaroso ora me deixava contagiar por tal contentamento. Sentia-me… intermitente. Como costumava andar animado, toda a gente na escola estranhava o facto de eu estar assim e comentava-o pelos corredores, até mesmo os professores.
O que se passava, afinal, que nem eu percebia? Ai, adolescência!... 
António Vaz, 14 anos, Colégio Paulo VI – Gondomar, Prof.ª Raquel Almeida Silva
Desafio nº 126 – sentia-se intermitente